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A mulher também tem o poder de se transformar em passarinho. Chama Nesting – quando preparamos o ninho para a chegada do bebê.

Foto do escritor: Amanda Flora
Amanda Flora
23 de out.
8 min de leitura

Me lembro muito bem desse sentimento, parecia que um bicho havia me picado, pois foi de um dia para o outro que eu decidi, aliás que uma vontade de arrumar tudo, me invadiu, tipo furacão, e era inútil resistir. Me entreguei, e foram algumas etapas engraçadas.


Eu tinha, e falo com orgulho TINHA uma reputação muito manchada pela minha bagunça, em um nível que não tinha a menor chance de entrar no meu quarto por causa de coisa espalhada. Sério, sabe aquelas casas de acumuladores? Parecia. O negócio é que eu pegava uma roupa, não queria e jogava no chão, e assim com tudo, nada voltava pro lugar. Minha casa depois, quando fui morar sozinha, era uma loucura, mas eu nem ligava. Me lembro de uma cena muito marcante há muito tempo atrás, que me definiu muito.


Eu fui morar em Londres com uma amiga minha assim que eu fiz 18 anos, eu e ela somos muito bagunceiras, e um belo dia os pais vieram visitar. A gente limpou a casa inteira. O pai dela entrou, olhou, inspecionou, e achou super estranho. A passos sorrateiros ele foi se aproximando do meu quarto, eu fiz cara de paisagem, ele me encarrou novamente, eu mantive a pose. Ele abriu a porta e TANTAN tudo clean e arrumado, só tinha um detalhe, ele me conhecia bem demais. Foi então que ele correu em direção à minha cama e levantou a coberta “HA HA SABIA, ESTAVA BOM DEMAIS PARA SER VERDADE”. É, a bagunça toda estava ali, que nem um corpo morto escondido, mas se fosse assassinato eu estaria mandando essa carta da prisão.


Segui com o hábito, com a fama, e enlouquecia as pessoas, minha mãe, minha prima que foi morar comigo, todo mundo queria me matar, principalmente meu pai que fazia inspeções diárias no meu quarto, e me acordava de manhã aos sábados para eu arrumar a cama. Ainda bem que eu não tenho muita coisa, não sou acumuladora, eu ERA muito bagunceira.


Quando eu engravidei, continuei um caos, mas aproximando-se dos dois últimos meses de gravidez, eu contraí a síndrome do ninho. Pensa em uma pessoa bagunceira insuportável que se tornou a chata da arrumação, essa era eu, mas ninguém levava a sério, e todos pensavam que era fase.


Mas afinal, o que faz você entender que está com a síndrome? É simples, você começa a preparar tudo para a chegada do bebê, às vezes até de forma compulsiva. Limpa a casa, arruma o quarto, joga fora tudo que não presta, “energias ruins” que pairam em objetos inúteis, limpa o armário do neném, as roupas lava mil vezes, checa se tudo está pronto mais algumàs vezes, faz mercado como se o mundo fosse acabar e você tivesse que estocar. Sim, eu diria que você passa por um momento de purificação pré-apocalíptica. Você quer deixar tudo perfeito, limpo, clean e armazenado caso alguma coisa aconteça. Parece que o mundo vai passar por uma transformação maluca e caótica e você entra no bunker da sua casa com tudo que precisa para passar por esse transformação, porque depois que o dia D chegar não tem como ir atrás de nada. E não é que você passa realmente por uma transformação apocalíptica? Claro, seu mundo muda, seus hábitos, e você fica refém em casa mesmo, com barricadas na porta para afastar os sanguessugas, em silêncio para não despertar o neném, e por assim vai. Eu caracterizaria essa fase, ou síndrome, como a preparação para o fim do mundo, como nos filmes. E pois é, o mundo que você vivia sem ser mãe vai embora, e outro se cria quando o seu maior amor nasce. Depois da tempestade vem a... outra tempestade. Afinal, não vamos nos iludir pensando que é a calmaria, os primeiros meses do neném é punk e você acabou de entrar em um admirável mundo novo.


Quando penso na minha preparação pré-apocalíptica, lembro de dois episódios hilários meus, que fizeram parte do meu ritual de passagem. Como eu sou um pouco intensa, tudo que eu faço, eu FAÇO.


Eu estava prestes a entrar no 9º mês de gestação, com a ansiedade a mil, de pé ao lado da porta que divide a sala para o jardim, com uma xícara de café na mão, encarando meu jardim com ódio. Eu olhava e olhava para a grama toda desbeiçada, tinha trevo para todos os lados, e esses queridos só aparecem quando o jardim está mal cuidado e falta cálcio no solo. Normalmente aquilo passaria totalmente despercebido, mas naquele dia eu queria entrar numa batalha com aquele jardim. Ele estava me tirando do sério. Eu estava furiosa. Nada me fazia tirar os olhos daquele jardim, me chamaram, tentaram entrar em contato comigo mas eu estava focada bolando um plano de como eu iria vencer aquela guerra contra as gramas descontroladas e os matos invasores. Fula da vida, fui procurar meu kit jardinagem, e comecei a empreitada. Tinha um rastelo, uma pá, e um troço que eu não sei como chama, fiquei 1h tentando cortar a grama com o que eu tinha. Lembrei então que havia um cortador de grama no porão e corri para pegar. Era pesado, levei bronca do meu marido, ele pegou para mim e perguntou


“O que você está aprontando Amanda?”


Eu???? Nada ué, vou dar uma aparadinha na grama que está um caos


Tá mesmo! Boa amor, vai lá, só não força demais ta?


Pode deixar meu amor.


Peguei aquele cortador de grama na mão como se não houvesse amanhã e comecei a empurrar por todos os lados, descontrolada. Quem olhava de fora com certeza pensou que era caso de internação. O sol começou a surgir. Nada funcionava. Não ficava do jeito que eu queria. Veja, no meio do jardim tem piso para chegar até a piscina e em volta ficaram gramas extremamente irritantes, e perto de qualquer piso ficava algo bizarro. Me posicionei novamente de longe para ter uma visão ampla do meu inimigo e criar outro plano. As minhas armas não eram suficientes. Eu ia passar o dia tentando e no final ia dar a mesma impressão de bagunça. “Como que minha filha vai chegar numa casa assim? Largada?” .


Pensei, pensei, e logo me veio uma luz, “menos é mais”. Pois é, peguei uma tesoura na mão e como Edward me joguei naquele jardim como se não houvesse amanhã. Após algumas horas de pura compenetração, eu sinto uma presença, alguém estava me observando. Olho para cima, mas o sol ofusca minha visão, só vejo o balançar de negação de uma cabeça e uma voz “Meu deus, não pode deixar sozinha mesmo, casei com uma louca”. Olha, ele está errado, eu só sou intensa. No total, comecei a cortar com a tesoura eram meio-dia, lembro pois o sol estava a pino, terminei o sol já havia se posto. Peguei um bronzeado incrível, mas em compensação, toda guerra traz consigo suas cicatrizes, e eu não estava de fora dessa, minha mão era uma bolha só, no início, coloquei band-aid, com o suor ele saiu (não adianta nada pôr na embalagem que é resistente porque não é), a tesoura então começou a transformar as bolhas em carne viva, não liguei, eu tinha um objetivo. No final minha mão não estava boa, mas foram alguns anos de terapia que eu deixei ali naquele jardim, era eu, eu mesma, e a grama. Ele estava impecável, eu havia eliminado completamente o inimigo.


Escuto, novamente a voz “Que orgulho amor! Mas você é doida mesmo né? Marie presta atenção na mãe que você tem”, falando com a minha barriga.


Voltei para o meu local de observação, peguei uma xícara de café, olhei e com orgulho pensei “Agora sim esse neném pode chegar que aqui fora tudo está lindo”. Depois claro, eu olhei de novo, percebi um fio mais alto, peguei a tesoura, cortei “Agora sim, eu venci “.


A segunda vez que eu percebi de fato que a síndrome tinha me atingido, e gravemente, foi o episódio da despensa.


Como alguns sabem, eu sou madrasta (odeio esse nome) de duas meninas, uma de 7 e outra de 4 aninhos. Como sou eu quem faço as compras de mercado e almoços/ jantares, eu quis deixar tudo no esquema para quando o apocalipse chegasse. Primeiro eu pedi ajuda para o meu pai, vamos dizer que ele é neurótico de guerra com quantidades, dei uma simples tarefa “Deixar pronto alguns pratos para eu congelar e comer no dia a dia, para mim, bruno e as crianças”. Bom, missão dada é missão cumprida né? Sim. Recebi as marmitas, todas embaladas perfeitamente e rotuladas, inclusive com quantidades. Foi incrível. Quebrou um galhão. Mas eu precisava organizar a minha cozinha, minha despensa, ver o que estava estragado, o que não estava, jogar fora tudo que não precisava estar lá. Eu não achei que fosse ser tão demorado.


Abri o freezer, limpei tudo que estava lá. Ai, olhei para as embalagens do meu pai rotuladas e as minhas não ornavam mais com aquela organização, então, rotulei, e para dizer que o meu era mais completo, coloquei até data. Eu e meu pai temos essa competição saudável e não dita entre nós que vivemos diariamente, aliás eu sempre ganho.


Fui então ao ataque da geladeira. Não preciso nem dizer que cada passo que eu dava eu fazia uma lista do que precisava comprar né? Bom, ótimo, finalizei a geladeira, vou só dar uma olhada na despensa, coisa rápida. Hummm, não, antes os temperos, tem tempero aqui fazendo bodas comigo. Conclusão? Tinha tempero que veio da época que eu morava com minha mãe. Aposto que vocês também têm heranças desse tipo. Temperos rotulados, organizados, vamos finalmente à despensa.


Veja, minha mãe me deu uma máquina de embalar a vácuo, herdei da minha vó uma seladora da Arno antiga, eu estava pronta para qualquer negócio. Comecei a pegar saco de arroz arbóreo aberto e ploft embalei a vácuo, feijão? Vácuo. Semente de girassol? Vácuo. Tudo, basicamente tudo eu embalei a vácuo, até que acabaram os sacos. Segui com a seladora, saco de arroz aberto? Selei. Macarrão? Troquei de saco e selei. Bom, passei a tarde inteira nesse mecanismo automático de trocar de recipientes, selar, rotular. Quando eu já estava consideravelmente cansada, me deparo com um balde, alto, não conseguia ver o conteúdo dele. Já estremeci, esses baldes sempre carregam surpresas. Dito e feito, lá tinha tudo, podia-se contar a história culinária da casa e fases devido ao número de coisas lá. M&M de dois anos atrás que já estão descoloridos mas você ainda não teve coragem de jogar fora. Esse M&M trouxe de uma viagem para as crianças. Balas de cereja da Haribo que eu amo, que eu nem sabia que estava lá. Sempre um farelo duvidoso que você não tem ideia o que era e desde quando está lá. Sachê de ketchup, mostarda do Fifities, ainda junto com o guardanapo, Hashi do Sassa Sushi que você admira e pensa “nossa como é bom comida japonesa, pedíamos tanto...” e claro, o hashi já está até mofado, por último, no fundo, um pacote repleto de shoyu em sachê. Muita coisa mesmo. Eu olhei, fiquei pensando, nossa se isso ficar ai eu nunca vou conseguir usar, eu odeio abrir isso, metade cai para fora, eu me sujo inteira, me irrita profundamente. Fui para o meu local de observação usual, dessa vez virada para a mesa de jantar, não tinha espaço para mais nada em cima dela, eu tinha organizado tudo por tipos, e lá no fim dela, os sachês de shoyu. Encarei, e só uma solução vinha em minha mente “Passar tudo para o frasco de aceto balsâmico que acabou e eu ia jogar fora, ainda bem que eu limpei os temperos”. Vamos então. Comecei o primeiro abrindo com uma tesoura e jogando cuidadosamente dentro do vidro, metade fora, roupa manchada, um desastre e uma demora infinita. Não ia rolar.


Funil é uma boa saída, procuro o funil, sem sucesso, mas eu já sabia que não tinha, sempre que eu tento me lembrar o que falta na cozinha, é o funil, mas nunca lembro e sempre fico brava comigo mesmo. “Vou pegar então uma garrafa de coca, cortar a parte da boca, e voilá! Funil feito, ele não encaixava no bocal do vidro que eu tinha escolhido. Vou fazer um adaptador, afinal eu fui escoteira e sei tudo de adaptação. Feito! Ficou um lixo. Mas essa altura do campeonato parceiro, eu já estava quase engolindo todo o shoyu dos sachês para não ter que seguir em frente com o plano.


Pronto. Podemos começar. Montei o laboratório. Pano de prato velho, garrafa, adaptador, funil improvisado, frasco receptor, tesoura. Um por um, mandei aqueles cretinos para dentro do frasco. Mais uma vitória. Fui para o local de observação, contemplei a vitória, uma bagunça generalizada, mas os sachês todos dentro da garrafa de aceto balsâmico, foram 750ml de pura terapia.


É pessoal, não é fácil para ninguém. Eu entrei nesses de cabeça e nunca mais voltei. Hoje sou chata, organizada, mas isso mudou muita coisa na minha vida. Faz parte da gestação preparar o ninho e eliminar excessos, fora que né, economizei mó grana em terapia.

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