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O ventre que dá flor é lindo, mas fica flácido também

Foto do escritor: Amanda Flora
Amanda Flora
22 de out.
7 min de leitura

Mães, nós unicamente sabemos como não é fácil passar por essa mudança corporal imensa que acontece conosco assim que a semente é plantada em nós. Eu poderia escrever um livro sobre como o nosso corpo é perfeito e acima de tudo poderoso, é quase inconcebível o entendimento real do que é gerar uma vida, pelo menos para mim é. Tanto é que até hoje olho para a Marie e fico pensando “Cara, como? Coooooomo? Sério, como que EU fiz isso???” e não consigo responder, parece irreal. Um ser humano, mini, redondo, saiu de mim, e eu que fiz. Amasso ela às vezes para ter certeza que eu não tô sonhando e que é de verdade. Brincadeira, amasso porque ela é extremamente gostosa e não sei lidar com as dobrinhas ultrajantes dela.


Mãos, pés, barriguinha, nariz, língua, cabelo, cérebro, sei lá, TUDO, fui eu que fiz. Comi errado, fumei cigarro, não me exercitei e mesmo assim saiu um ser humano de mim que me consome até o presente momento. Eu ainda estou fazendo esse ser humano. Antes dentro, agora fora. Toda essa poesia para dizer que é muito maluco gerar um ser humano e que para isso o nosso corpo que nunca fez isso antes passa por transformações muito sérias. E de quebra, nós, pertencentes a esse corpo também.


Sempre que eu comento com alguém, que não passou por isso, sobre o meu corpo e que estou acima do peso, existe um julgamento automático “Nossa, mas você tá super bem” e também “Você tem que se amar do jeito que você é, seu corpo é lindo de qualquer jeito, olha o que você passou, ame-se”. Gente, deixa eu explicar, eu não estou em conflito com a sociedade de não me encaixar em um perfil de corpo bonito e quero me revoltar. Também não estou abraçando o fato de que eu estou acima do meu peso, o “amar-se do jeito que eu estou” não está funcionando, eu não estou me amando, então não vejo a necessidade de entrar na onda de que eu tenho que amar meu corpo como está, se ele é lindo ou não, eu não acho. É utópico pensar que eu amaria o meu corpo como está, e quero acrescentar, eu não estou menosprezando quem consegue o fazer, acho muito foda, mas eu não me encaixo simplesmente no “body positive”, a minha mudança vem de dentro, gerada por um neném. Eu acho que toda mulher esconde uma beleza, e mostra a sua beleza, e toda mulher é linda, mas EU não estou bem comigo mesma do jeito que eu estou. Então quando me deparo com esses comentários de que tá tudo bem eu tenho vontade de gritar NÃO ESTÁ, e tudo bem eu achar que não está. Por que que eu tenho que aceitar o jeito que eu estou se eu mesma que convivo com esse corpo não estou feliz? Se aceitar é ser forte e querer mudar, emagrecer, é ser fresca? Às vezes sinto isso quando comento que quero emagrecer. De novo, repito, admiro muito quem se aceita!! Isso é pura autoestima e tenho muito respeito por isso, não deve ter sido fácil, mas eu também quero me aceitar e do jeito que eu estou não dá. Quando falamos em aceitar, usamos essa palavra, é porque um dia já passamos pela fase de desmoronamento emocional de não gostar de si mesma. Por trás do aceitar, existe uma história, e cada uma tem a sua história, e os julgamentos não são importantes para quem está passando por obstáculos para chegar a essa linha de chegada, do aceitamento interno e externo.


Nós, mulheres mães, pelo menos a maioria, ficamos surpresas com as transformações drásticas que nos ocorrem em tão pouco tempo. Hormonais, mentais, de vida. Quando decidi ser mãe tudo mudou dentro de mim porque eu sabia que tudo ia mudar ao meu redor também. O mundo em que eu vivo hoje é tão distante do que eu vivi ano passado, e passaram-se apenas 12 meses. Passei de garota a mulher, a mãe, tudo mudou. Além de transformações corporais eu evoluí muito como ser humano, e estou muito feliz com o que eu construí até agora MAS eu quero me sentir bonita, e para isso eu quero emagrecer, e qual o problema nisso? Acredito que as pessoas pensem que eu estou sendo superficial, e deixe que pensem, não é nada disso, e EU sei disso.


Registro de uma mãe sentada na cama, com o bebê ao fundo.

Acordo, me olho no espelho e lá estão todas as etapas da minha transformação estampadas na minha pele. Um cabelo bagunçado, caindo, mas sedoso. Sobrancelha enorme, largada há tempos. Uma olheira imponente que quase esconde meus olhos baixos de sono. Meu lábio, que cresceu um pouco durante a gestação, está marcado pelos meus dentes por pura ansiedade. Bigode crescido, sinto-me uma Frida forçada pela falta de tempo. Mesmo assim, olhando no fundo dos meus próprios olhos sei que estou ali, evoluída, florida, mas em um corpo que não reconheço. Sim, mesmo que eu me olhe todo dia no espelho sinto a diferença do que eu era antes.


Peitos? Eram tão firmes, agora servem o único propósito, dar vida à minha flor. A queda deles não me preocupa, nem me deixa me sentindo pior, as estrias vieram junto com a expansão da mama, são as marcas da leoa mãe que me tornei. Algumas pintas que eu nem sabia que eu tinha apareceram. O ventre mudou. O ventre ficou elástico, mole, flácido, esticou tanto para ter o meu neném ali confortável que quando ele saiu, deixou suas marcas. Me disseram tantàs vezes que o corpo voltaria ao normal, que amamentação seca que eu nem me preocupei.


Estou aqui na frente do espelho 4 meses de amamentação depois e nada. Continuo com 66 kg.


Quando você escuta os palpites você pode se frustrar e muito. Cria expectativas que seu corpo não atende. Às vezes o seu metabolismo não é o mesmo que a mãe que te deu o conselho, às vezes você amamentou menos tempo, às vezes parto normal e cesárea têm influências diferentes no corpo, às vezes você é mais ansiosa e acaba comendo mais, às vezes o seu neném é mais agitado e você dorme menos e come mais doce, existe um milhão de possibilidades pelas quais a sua experiência será diferente da outra mãe, mas você ouviu, e agora criou expectativas. O conselho que eu dou é para não se basear na experiência alheia, por mais que seja difícil.


Claro que existe uma maneira de o corpo ficar do jeito que você se curta, exercícios e alimentação balanceada né? O problema mesmo é você que já não está bem arranjar energia para ir atrás dessas duas coisas, além, claro, de ainda estar 100% em função do seu bebê lindo. É complicado, e a vontade está lá acesa, mas eu me sinto muito cansada, ainda não entramos em um ritmo normal, eu e a Marie. Eu ainda estou voltando aos poucos a retomar as minhas atividades e mesmo assim, tudo ficou mais complicado. Eu tenho plena consciência de que a mudança do meu corpo vem de mim e minhas ações refletem a sua aparência. Eu sei disso e muitas mães que estão insatisfeitas com o seu corpo sabem disso também, tenho certeza.


Ser mãe é uma aventura muito maluca e eu me coloquei de lado totalmente e me devotei à minha filha. Uma ação totalmente inconsciente que eu não me arrependo nem sequer um minuto, vejo ela crescendo, se desenvolvendo, cada dia uma nova descoberta e isso me faz esquecer de mim mesma e reflete no meu corpo.


Eu quero ver ela crescer, em cada detalhe, e eu sou esse tipo de mãe que esqueceu de mim. Eu já estava frágil e sempre fui bem melhor em cuidar dos outros do que de mim mesma, a vida toda, e acho que por isso que estou assim.


Meu corpo gerou um ser humano, ele se modificou, mas isso não quer dizer que eu preciso achar ele lindo né? Os quilos a mais me incomodam bastante e eu quero mudar. É uma pressão que vem de todos os lados para eu emagrecer, e já não bastasse eu me sentir mal comigo mesma ainda tenho que atender expectativas alheias, essas, claro, não explícitas, elas só estão ali pairando no ar, mas eu inspiro e absorvo, é péssimo.


Fico tão brava com quem julga quem já está com dificuldades. Eu sei também que o corpo que eu tinha antes foi embora junto com a mulher que eu também fui quando não era mãe.


Deixem de pressionar nós mulheres que acabaram de ter filhos. Basta nós mesmas. O meu corpo vai se transformar quando eu me transformar, e nada nessa vida é do dia para a noite. Vá com calma consigo mesma, eu tô tentando. Comecei com calma e leve, fui comprar roupas para o meu corpo atual, meu corpo pós-parto, mágico, e essa pequena coisa me deixou muito confiante. Dei um passo muito maior do que eu imaginava, e sem perceber outras coisas já foram mudando ao meu redor, nas minhas atitudes, sem eu ter de forçá-las. Pequenos passos, com calma, respirando fundo, vai dar certo.


Eu aceitei que esse corpo é passageiro, é do pós-parto, e ter roupas que me fizessem sentir bem naquele corpo me elevaram a autoestima. O tentar usar roupas de antes que não cabiam só piorou tudo, só era uma recordação de que aquela vida tinha passado. Me olhar no espelho depois de pisar na balança também.


A calma é sua melhor amiga nesse processo, e como toda amiga vocês podem brigar, pode rolar até uma separação por um tempo e isso te desestabilizar, mas ela volta. Calma, muita calma, e tente evaporar os maus conselhos e absorver aquilo que achou que pode te ajudar.


Tome um banho longo nos piores dias e hidrate o cabelo. Nos melhores dias também hidrate a pele. Peça mimos, faça aquilo que te faça sentir bem, nem que seja comer um chocolate, não se coloque em situações extremas que irão te chatear, tente manter a calma.


Calma, respire, respeite seus limites que seu corpo vai recompensá-la, ele já te presenteou há pouco tempo com a pessoa importante da sua vida, imagina então do que ele é capaz.


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