top of page

Paternidade

Foto do escritor: Amanda Flora
Amanda Flora
23 de out.
10 min de leitura

Do arquivo Leite & Azeite: relato escrito durante a gestação e os primeiros meses da Marie. As relações, os acontecimentos e os sentimentos são os daquele período.


Nasce uma mãe, nasce um neném e nasce um pai também. A jornada da mãe no início de vida do filho é muito desgastante, passamos por tantas mudanças que qualquer uma pode pifar, e algumas pifam, eu mesma estive e ainda estou tentando entrar em um ritmo para tornar minha vida mais suave, e mesmo assim é bem complicado. A diferença entre o tempo de cuidado disponível para mães e pais me fez pensar no peso que recai sobre cada um. Com certeza você mãe deve estar pensando “Ué, mas não ta bom? Sou eu quem faço tudo mesmo” e aí que estamos erradas. Existe uma cultura enraizada no Brasil e na maior parte do mundo que é a mãe que tem que cuidar do neném, e o pai trabalhar, mas quando falamos assim, parece e é arcaico, um pensamento muito atrasado. Hoje em dia as mulheres trabalham de igual para igual, temos muitas responsabilidades e quando nasce nosso filho a coisa entra numa piração de cobranças enormes, justamente pelo acúmulo de responsabilidades.


Uma pesquisa de Petra Persson e Maya Rossin-Slater sobre uma reforma sueca mostrou que dar ao pai mais flexibilidade para estar em casa com a mãe no pós-parto pode reduzir complicações de saúde materna. O estudo fala de flexibilidade e presença compartilhada, e não simplesmente de uma licença-paternidade de 30 dias. Para mim, isso reforça a importância de tempo para cuidar juntos.




Os pais devem ser mais presentes na vida da mãe no período pós-parto, é importante para todos, mas como falei antes, existe uma cultura de que a mãe que deve cuidar do filho, e os pais logo voltam ao trabalho. a responsa ainda recai sobre nós, e o que mais pesa não é a própria criança e o cuidado que temos com ela e sim os nossos trabalhos domésticos não remunerados ou vistos. Li outro dia uma frase ótima, que era mais ou menos assim: “Maternidade real só é valorizada quando deixamos de fazer o que fazemos todos os dias”. E, por mais triste que seja, é a pura verdade, ninguém vai reclamar da louça lavada, da cama feita, do mercado em dia, mas, se por uma semana uma mãe deixar de fazer tudo que faz, essas tarefas invisíveis, ai sim, a ausência delas as tornaram visíveis imediatamente e só assim há um início de entendimento e valorização do que realmente fazemos. Não é à toa que dizem que essas tarefas são jornadas, pois são visceralmente desgastantes e engolem nosso tempo com muita preocupação para sempre deixar tudo em dia. Nos pressionamos demais para que tudo corra bem e funcione, mas porque não podemos pedir ajuda aos pais? Mas como que os pais podem fazer isso se logo que o bebê nasce eles têm de voltar ao trabalho? Como criar uma relação de balança doméstica saudável se somos deixadas sozinhas pela lei.


Acredito que o mais preocupante ainda não seja estabelecer rotinas, divisões de tarefas, e sim vencer o preconceito gerado há anos sobre o papel do pai e o papel da mãe. E isso recai diretamente na licença parental, pois se criássemos tempos maiores para os pais, aos poucos a coisa ia mudar de figura. Explico aqui meu raciocínio: Nasce o neném e ambos têm o mesmo tempo para a volta ao trabalho, logo ambos estão em casa cuidando do recém-nascido sem precisarem se organizar para a solidão que ficará a mãe, ambos voltam juntos e passam pelos mesmos tempos de adaptação à vida nova e responsabilidades de pais. Quando o pai tem que voltar muito antes que a mãe, já é pré-estabelecido que ela que irá cuidar do neném e ponto final. Sim, nós mulheres precisamos amamentar e isso pai não faz, mas existem todas aquelas tarefas invisíveis e importantes a serem feitas, ou copo d’água quando amamentamos, acordar na madrugada conosco sem se preocupar que logo cedo precisa sair para trabalhar, entra outras mil coisas. O tempo é determinante para que possamos nos adaptar, e é punk mesmo, tanto nós como os pais queremos estar presentes. Claro, estou falando no geral ok? Estou sendo bem binária Mãe/Pai, sem levar em consideração os tipos todos de famílias existentes hoje em dia. Há uma grande porcentagem de mães sozinhas que enfrentam outras dificuldades, casais homoafetivos, adoção, pai sozinho, enfim, mas esse papo é para outro post.



Eu vejo meu marido, que é autônomo, trabalha de casa, e se mata de trabalhar, vira noite atrás de noite para dar o melhor para todas nós. É admirável, ele se cobra muito, e esse é o papel que ele tem que exercer como pai no momento, afinal eu perdi o emprego então tudo recaiu nas costas dele. Por muito tempo eu fiquei brava, pensava que ele não era presente, que ele não me ajudava, e outras coisas, por que eu também trabalho certo? Como eu consigo e ele não? E comecei a refletir de fato nisso que me ocorria, do mesmo jeito que eu tenho uma pressão enorme em cima de mim para ganhar dinheiro, ele se cobra em triplo para nos sustentar, sem ele todas aquelas tarefas invisíveis que eu exerço em casa não seriam possíveis. É duro pensar assim, é duro admitir que o papel de cada um foi se estabelecendo por necessidade. Mas quando ele consegue 5 minutos de respiro ele vem e namora a filha, e o tempo para, e eu entro em estado de pura contemplação. Eu sei que nada no mundo é mais importante que nós para ele, os olhos dele não mentem. Ele trouxe todo o equipamento de trabalho para casa para poder trabalhar daqui e ficar perto, só poder estar perto pois precisa trabalhar que nem louco, e é por causa desse herói que eu posso escrever para vocês, sem o esforço dele para manter tudo de pé, eu não poderia ter optado por me jogar em uma carreira de escritora, empreendedora ou seja lá o que for que eu estou traçando. Ele me possibilitou isso, me apoiou, e eu estou agarrando com unhas e dentes, afinal por causa disso ele fica mais tempo afastado de nós. Eu tenho as minhas funções, e ele as dele, e é assim que nós estamos vivendo, os dois cansados e exaustos. Uma vez, logo no começo, em uma discussão ele me disse “Se eu pudesse eu trocava com você” e eu sei que sim, mas eu penso, mãe é mãe e pai é pai, existem características de cada um que são intransferíveis, e trocar não ia servir de nada, mas o sentimento de querer estar perto e cuidando da neném é genuíno, e isso que ele quis dizer, que queria estar 100% com a neném como eu fico. Claro, existem crises homéricas, existem reclamações intermináveis, mas se eu analisar o todo eu tirei a sorte grande e a Marie então nem se fala. Eu morro de orgulho do paizão que ele é!


E eu também não posso esquecer o meu progenitor, como ele se autodenomina, que sempre está presente, me liga todos os dias, nos visita para ajudar, faz marmitas incríveis que eu congelo para as crianças, então em dias sem respiro é só colocar no forno e tem jantar, meu pai também é um herói, já me deu muito trabalho. Ele me passou valores que só da perspectiva de pai ele poderia me passar, ele me fez o ser humano que eu sou hoje. Para quem não sabe, meu pai é alcoólatra, está em recuperação há 13 anos. Faz 13 anos que ele está limpo, e diariamente ele é forte o suficiente para não beber mais, e isso é incrível. Meu pai é sensível, generoso, completamente xarope, e meu herói. Temos piadas internas e um senso de humor único nosso, temos uma relação extraordinária, com muitos atritos óbvio, mas uma relação única que só poderia ter criado com meu pai. Essa relação não tem nada a ver com minha mãe, nada, e isso é necessário! Eu amo meus momentos particulares com meu pai, nosso jeito, nossas risadas. Existem coisas que só ele pode fazer, que minha mãe não, e vice-versa. Pai é pai, mãe é mãe, e mesmo divorciados há muito tempo eles souberam manter o equilíbrio da função de cada um. Hoje em dia vejo o quanto ele é dedicado assim como o Bruno, em sempre me dar o melhor e se fazer presente. E eu não podia ser mais feliz com o pai que eu tenho, é meu grande amor, meu guru, que me faz mini temáticas, que me liga todos os dias de manhã e a tarde, que pede foto da Marie, que baba nela como avô, que faz visitas regulares de 15 minutos e não ultrapassa esse tempo porque não consegue, é uma lista extensa de particularidades dele, que eu amo, admiro e me deixam louca também. Eu preciso desse polo paterno em contrabalanço do polo materno. Cada um faz sua parte na minha vida, e é presente à sua maneira, mas o que importa é que é presente e ponto.


A paternidade ativa se faz de várias maneiras, não necessariamente ajudando em si a mãe, no meu caso o Bruno faz de tripas coração para que a gente possa viver bem e eu demorei para entender que no momento essa é nossa realidade. Mães são muito fortes, incríveis, e temos um trabalho fora do comum com muita coisa, mas os pais também têm, e precisamos pensar e avaliar o todo. A maternidade é muito desafiadora, nos cobramos, nos doamos por completas e fazemos de coração, corpo e alma, e precisamos de apoio, e eu tenho apoio. Agora que eu estou trabalhando mais, fico muito preocupada com o tempo que tenho para fazer minhas coisas, e sinto falta de ele estar mais presente para me ajudar, mas ele mesmo não tem tempo nem para ele. Uma relação é algo delicado, e precisamos nos ajudar para não tornar mais difícil do que já é.


Nós mães temos um papel vital para o nosso bebê, e o pai tem um papel emocional grande para nós e para eles, quanto mais ativo, presente o pai for, melhor para a mãe, melhor para o bebê. Precisamos repensar como sociedade a forma como é feita a licença parental no geral, porque se nós mães estamos trabalhando iguais a eles, eles deveriam ter o mesmo tempo de licença que nós, para ajudar como podem quando adentramos a realidade de ser mãe. Infelizmente estamos longe dessa realidade e em alguns casos, como o meu, o pai é autônomo, e não tem nem sequer um dia de licença, e isso tudo complica bastante as coisas, torna desgastante, mas é preciso encarar a situação com lógica e entender o que cada um pode fazer, abrir sempre um diálogo saudável para expor as dificuldades e seguir em frente de forma recompensadora. Não é fácil ser mãe, não é fácil ser pai também.


O pai da Marie é um herói, e confesso que por mais atritos que temos, ele é o meu herói também, mas até os nossos heróis nós queremos matar às vezes, é normal. Ser mãe é desafiador demais, e existe uma solidão quase que incabível, mas precisamos como mães também entender o que o pai representa. Entendam que esse post é para falar deles e não de nós mães, porque pode parecer que estou nos menosprezando, e não, de forma alguma, pois passo na pele todos os dias os desafios de ser mãe e ainda assim manter a mente sã. O que eu quero mostrar aqui, pensando na minha experiência, é de que cada um faz o que pode, e é importante que faça, pois existem muitas histórias de pais inexistentes, ou folgadões mesmo, mamando da energia de suas parceiras, que essas nem percebem que estão cuidando de dois bebês, mas não é meu caso. O lado pai da relação, quando saudável, precisa também ser aplaudido. O Bruno é um paizão, maridão, homão, que me enlouquece, que eu quero matar, que já pensei mil vezes em arrumar as malinhas e vazar, mas isso é pura loucura, porque ele é fantástico. Sei que como mães, estamos sempre nos doando demais, inteiramente e que fica difícil até elogiar qualquer outra pessoa e principalmente o pai quando falamos de cuidados com o bebê né? Quando a gente começa a pensar no dia a dia em si, dá até raiva de falar que eles são maravilhosos, porque ninguém fala que nós somos espetaculares, até que alguém vira e fala “Nossa encontrei o Bruno outro dia, como ele te ama, e como ele rasga elogios, ficou o tempo todo só falando de como você é a melhor mãe do mundo”. Eles pensam isso, talvez não façam ideia do realmente passamos, e não fazem, mas sabem o quanto nos dedicamos, e se ele faz de tripas coração para nos dar o melhor é porque ele pensa que eu sou a melhor mãe do mundo mesmo. Ninguém é perfeito, e a maternidade é linda por causa das imperfeições né? Por que a paternidade também não pode ser?


Eu aprendi que nessa vida temos que fazer as coisas porque queremos e não esperar nada em troca, a troca vem sozinha quando é feito de coração e não por intenção. Não tem problema nenhum a gente valorizar os pais, isso não quer dizer de forma alguma que estamos nos desvalorizando. Cada um tem sua forma de amor, sua forma de ser, de agir, não podemos esperar do outro o que nós queremos, vai ser frustrante. Gerar expectativa de que o pai vai fazer tudo do jeito que você pensou é pura fantasia, isso não existe na vida real. É importante para nós mães entender que eles fazem o que podem do jeito que conseguem, entrar em conflito querendo mudar isso é nocivo e inútil. Eu, diariamente, tento melhorar o meu lado de cobrança para cima do pai da Marie, eu entrava em tumultos enormes internamente sobre isso pois criei na minha cabeça o pai perfeito, e obviamente que ele não atendeu as expectativas, assim como eu já não fui a mãe que imaginei ser, eu sou melhor do que pensei, e ele também, do jeito dele, sempre nos enchendo de carinho, amor, beijos, e fazendo a parte dele como ele pode, vamos nos ajeitando, nos entendendo, e hoje em dia, encarro a paternidade com muito mais realidade do que antes, podendo fazer as pazes comigo mesma sobre expectativas doidas que eu instituí.


Eu amo nossa família, e dela nada seria sem ele, sem esse pai maravilhoso, trabalhador, amoroso, e lindo que é o Bruno. Então, para finalizar, fica aqui o meu obrigada, a todos os pais que fazem parte da minha vida, e especialmente o da Marie e o meu, que não sei o que eu faria sem. Sem ele também eu não teria a Marie. Lembrem-se mães, não é porque nós valorizamos eles que estamos nos diminuindo, você pode se surpreender com o que eles pensam de nós, se para nós eles são heróis, imagina o que nós somos para eles.

Comentários


bottom of page