Puerpério

Placenta saiu. Você pariu a placenta junto com o neném e os hormônios, por isso prepare-se para um turbilhão de milhões de emoções. Eu lembro como se fosse ontem, no dia seguinte do nascimento da Mariecota eu estava no quarto, toda estropiada, nervosa para caramba, me sentindo o pior dos seres humanos, e minha mãe estava sentada na cama de acompanhante, junto à minha vó.
O quarto que estava do São Luiz era de ótimo tamanho, daqueles que você não se sente enclausurada, apenas presa em um local impessoal com luz branca. As janelas não abrem, igual cassino, para não correr o risco de algum querido se jogar, as venezianas sempre uma funciona a outra não, e como todo quarto de hospital, um milhão de botões que você não sabe para que serve e adora apertar.
A cama é aquela que você pode escolher que posição quer dormir, se alongar, descansar, mas por baixo um plástico que me faz lembrar que eu posso vazar. Eu estava estropiada, com uma linda fralda geriátrica pós-parto, com o pijama que abotoa na frente como pedido, sentada na cama olhando para o quadro de avisos. Lá estavam as informações que me deixavam diariamente nervosa, DIA DA ALTA. A minha filha estava na UTI neonatal, eu ia ter alta, ir para casa, sem ela. E eu passava o dia elaborando um plano muito maluco na minha cabeça do que fazer para conseguir ficar naquele hospital e mudar o dia da alta. “O que eu posso fazer? Fingir um ataque de pânico? Que fingir que nada, já estou sentindo forte isso. Posso escorregar no banho? Ou posso fingir um mal estar assim vou ficar para observação. Ah! Já sei, vou procurar no google quais complicações mães podem ter logo após o parto normal” e nessa loucura caminhou minha cabeça, até o dia da alta. Claro que eu não fiz nada, afinal, eu precisava estar muito bem para minha neném. Mas eu estava um caco, olhei para minha mãe e minha vó, ainda no dia seguinte do parto e abri um berreiro descontrolado. Nada me fazia parar, eu não respirava de nervoso, e ao mesmo tempo eu não sabia o que me fazia chorar tanto. Minha mãe e minha vó ficaram lá comigo, e eu chorava, acredito que chorei horas e horas a fio. A sensação era de que eu era a pior mãe do mundo, que minha filha tinha chegado ao mundo e eu já tinha falhado.
Eu ainda não tinha dormido direito, não conseguia dormir direito com a notícia do meu neném na UTI, simplesmente não conseguia. Ao mesmo tempo, eu não conseguia descer e ficar com ela por muito tempo porque o meu contato permitido era via o aquário, aquela incubadora. Eu tinha medo de passar alguma doença para ela, minha pequena astronauta, como intitularam os avós.
Foi aí que começou meu puerpério. A choradeira deu o pontapé inicial nesse mix de sentimentos. Eu acordava todos os dias as 6h da manhã, corria para o hospital para a mamada das 9h, antes disso eu tirava leite no banco, e voltava para casa 23h, todos os dias, por 10 dias. Foi extremamente desgastante, mas eu tinha companhia de outras mães passando pela mesma situação, somente a companhia, ninguém fala muito, mas quando você abre a porta para discussão você se depara com só coisas boas, todas fortes, firmes e solidárias. Acredito que essa rotina da UTI não me deixou baixar a guarda dos meus sentimentos por nada, eu precisava estar forte para ter leite, para fazer a neném crescer, para aguentar o dia no hospital. Eu levava meu livro, me desliguei de todos os meios de comunicação, simplesmente não usava o celular, era tóxico pra mim naquele momento.
Finalmente então chegou o grande dia, Marie teve alta e eu também. Antes de ir embora tivemos mais uma surpresinha, eu tive decência, que é quando os pontos do períneo abrem, e no meu caso, tudo virou uma coisa só. Foi bacana. Por isso que eu digo que a rotina da UTI me fez esquecer de tudo, e focar no meu bichinho, esqueci tanto, que até dor não estava mais constando no dia a dia. Operei na quinta a noite, chuvosa e feia assim como a semana inteira, e acordei na sexta de sol. Corri para a UTI, minha gostosa estava vestida e pronta para ir para casa.
Colocamos no carro, eu fui atrás, e me lembro que eu olhava para ela e pro sol e me sentia plena, a mulher mãe mais feliz do mundo, e de repente, aos poucos, como quem não quer nada, toda aquela dor que reprimi durante 10 dias começou a se apresentar.
Chegamos em casa e eu estava apavorada, ficava pensando, “e agora? O que que eu faço? Não sei fazer nada, nem trocar uma fralda direito”, que horror. Comecei a chorar internamente, queria mostrar felicidade a todo custo, afinal depois de 10 dias estávamos todos em casa. Bruno também estava feliz, mas eu percebia um cansaço emocional nele muito grande.
Era uma sexta, ele saiu e foi buscar as crianças e eu me lembro de quase pedir o divórcio. Eu não estava pronta para interagir com o mundo ainda e ele louco para apresentar as irmãs à Marie. O circo estava montado, crianças, minha família, a dele, começou a brotar gente do chão querendo conhecer ela, parecia o bebê real.
O primeiro dia levei na boa, mas no domingo a noite, eu surtei. Passei o fim de semana no quarto com ela, com um bico do tamanho do mundo não acreditando que o Bruno não tinha me dado aquele tempo para eu conhecer minha própria filha. Nem eu tinha tido contato com ela e todo mundo já queria conhecer, eu precisava de calma e foi caos.
Eu fiquei extremamente irritada, brigava com todo mundo, especialmente o Bruno, mandava mensagem para as minhas amigas, p da vida com a situação. Reclamava o tempo inteiro e chorava por absolutamente tudo. Eu estava além de tudo, recém operada, e minha médica mandou eu ficar quieta. Não conseguia nem pegar a neném sozinha. Precisava de ajuda para tudo e sempre rodeada de muita gente. Aquilo foi me sufocando tanto, me exaurindo, me enlouquecendo, que no domingo a noite eu surtei e mandei todo mundo embora de casa aos berros, me tranquei no quarto da Marie com ela chorando, aos prantos, pedindo pelo amor de deus que todos se retirassem, eu precisava respirar pela primeira vez em 10 dias.
A semana que seguiu foi puro caos, eu estava à flor da pele. Nada me deixava relaxada, nada me deixava tranquila, ou era a falta de ar constante, as visitas, a Marie precisando mamar e meu mamilo carne viva, mas uma coisa me fazia continuar a sorrir, ela estava em casa.
Muitas noites depois de brigar com o Bruno, ele era o alvo, eu entrava no quarto dela e deitava no chão, abraçava a almofada de amamentação entre as pernas e barriga e ficava lá, respirava 3 vezes bem fundo e voltava à realidade.
Marie, minha Marie Louise, sempre generosa comigo, dormia bem e nunca fez escândalo, ela me deu o tempo que eu precisava. Aquela calma, aquela necessidade de ir aos poucos, minha filha recém-nascida me deu.
A semana que ela chegou em casa eu chorei todos os dias, e não sai do meu quarto, da minha cama, a não ser para comer. Minha mãe chegava todo dia de manhã e me ajudava com o banho dela, com o meu, e com tudo, sem ela eu não teria conseguido. O Bruno ainda estava no meu radar de raiva. É incrível como nós precisamos de um culpado e de um herói em momentos caótico não é mesmo? Eu era a donzela em apuros. Pelo menos eu pensava isso na primeira semana.
Um dia convidamos os padrinhos dela para um churrasco em casa, nem o Bruno me aguentava mais, precisávamos sair daquele limbo parental. Nessa noite, eu semi acordada, Bruno começou a fazer churrasco e uma pergunta simples o fez desabafar: “Como foi o parto?”. Eu ia começar a contar quando ele disparou e não parou mais de falar, não respirava, e contava tudo nos mínimos detalhes. Logo eu percebi que eu estava sendo egoísta, e naquele momento enxerguei o pai da minha filha e não meu saco de pancada. Novamente, naquela noite eu chorei . Chorava sem parar pela culpa de ter jogado todas as minhas raivas de expectativas quebradas em alguém que estava segurando uma barra enorme, vamos lembrar que ele também estava com filha na UTI e mulher no hospital. Muita coisa mudou depois dessa noite.
Ao longo de várias semanas ainda eu me senti mal, e principalmente que eu não ia dar conta. Me lembro de colocar ela sempre ao meu lado no carrinho, olhar, e pensar “coitada, olha a mãe que ela tem, não consegue nem sair do quarto”. O medo é um sentimento protetor mas pode nos imobilizar e eu me sentia assim.
Os meus hormônios estavam descontrolados, eu ainda estava tentando entender meu corpo, queira ou não eu carregava ela dentro de mim e nada podia machucar meu neném. Agora não, ele estava vulnerável, do lado de fora, nesse mundo doido que eu seria para ela no início. O puerpério faz você se limpar da mulher que você foi antes de ser mãe. São semanas intensas de privação de sono, que você vive em função do neném e nada mais, você não consegue fazer mais nada. Assim como o bebê você também foi expelida em um mundo completamente novo e entrar em contato com os sentimentos que isso traz é avassalador.
Perdi a conta de quantàs vezes eu gritei, eu chorei, eu quis ir embora e sumir, de olhar para ela e pensar “Não vou dar conta, não tem como, eu sou fraca”, quantàs vezes eu tranquei a porta do quarto para ninguém entrar, quantàs vezes eu chorei de soluçar, chorei em silêncio, sorri de fraqueza, de falsidade e para atender expectativas alheias. As visitas passavam aqui e eu sempre sorria, dizia que tudo estava bem, “sim, ela é linda, obrigada pelo presente”, mas querendo morrer de fazer um mísero social. Perdi a conta de quantàs vezes eu olhei pro teto e vi minha vida passar na minha frente. De quantàs vezes quis mandar os gatos e cachorro pro sítio porque eles me davam trabalho. De ficar com raiva e ciúmes do Bruno. Principalmente de ciúmes, inclusive das meninas, eu queria atenção também.
Os meus banhos eram meu santuário, minha mãe ficava com a neném, eu entrava debaixo da água quente, tentando não deixar escorrer nos seios nem na zezette (cheia de ponto), e pensava na vida.
Fingia dormir para não ter que interagir com ninguém. Celular? Pf, esquece, só me irritava. Acredito que o sentimento mais recorrente do meu puerpério foi a irritação, porque eu queria paz e nada me trazia isso. Eu estava em guerra com o mundo e com meus sentimentos. Também fui atingida por uma tristeza melancólica chata. A comida não tinha sabor, os perfumes não se exaltavam, as noites e dias se confundiam, mas o choro da minha filha me trazia para a realidade. Quando eu tive alta, e pude me mexer à vontade, ir ao banheiro sem medo, as coisas começaram a mudar de cenário. Ufa! Me lembro claramente desse dia, depois da médica, de voltar no carro com outro astral, eu estava livre para ser. Os pontos foram caindo e com eles foram as minhas tristezas. Cada dia eu aprendia algo novo, cada dia eu ficava mais ágil, acordada e um sentimento de felicidade foi me invadindo e nunca mais me deixou de lado.
O puerpério foi um ritual de passagem para a vida de mãe, ele é um momento no tempo que tudo é suspendido. O seu “eu”, o seu “nós”, o seu ser, nada é real, você está em transformação. Está dentro do seu casulo, apertada, no escuro, com pouco ar, se preparando para desabrochar. Depois de algumas semanas tenebrosas de ondas gigantes e você à deriva, você sai do casulo voando, colorida e livre. Livre de culpa de não dar conta, livre de atender à expectativas, livre de raiva, de ciúmes, de tristeza profunda. O dia se abre como no dia que ela veio pra casa.
Pode até demorar para algumas pessoas mais do que outras mas depois que você sai voando nada consegue mais te segurar. Eu acordo muitàs vezes ainda nervosa mas por conta própria de coisas da vida. Tenho meus remédios para depressão que me ajudam muito e me cuido, mas sou feliz como eu nunca tinha sido. Sou feliz, muito feliz, e MUITO coruja. Estou em um momento pós-puerpério, e confie, depois de toda tempestade vem a calmaria, o céu azul e o ar puro. Não é fácil mesmo a fase pós-parto, muita coisa acontece, corpo muda, responsabilidades, individualidades, paladar, apetite, nervosismo, horários, tudo muda de uma vez só e saímos do eixo para ir para outra direção, assim como um trem nos trilhos, vamos em movimento no frenesi da novidade, de repente entramos em um túnel, escuro, longo, inacabável, úmido, fedido, sufocante, mas ele acaba, o trilho de desvia para outro lado, o trem segue nesse outro rumo, debaixo de um céu estrelado, poético e claro, com algumas pedras no meio do caminho que parecem que vão tirar o trem do trilho, mas ele passa por cima destruindo as tais pedras rumo à felicidade das novas desconhecidas descobertas belas.



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